Aninha nasceu bonitinha, bem feitinha, como diriam seus avós. Veio em boa hora, deu sentido à vida de D.Maria e de Seu José.
Cresceu sentindo que era uma pessoa especial, boa aluna, arrumadinha, discreta, a filha que todo pai queria.
Namorou alguns rapazes e teve uma paixão pelo Jorge, que era piloto. Lindo em seu uniforme e disputado por todas as moças. Namoraram perto de dois anos, mas ele a abandonou. Ficou ferida, principalmente no orgulho, não suportava a ideia de ter sido abandonada. Empertigou-se e não namorou mais ninguém, achava todos os homens pequenos demais, tinham que ser superiores ao Jorge e nenhum era.
No decorrer dos anos foi encontrando a solidão, as amigas casaram-se e tinham outros afazeres e outros interesses, os pais morreram, não tinha irmãos. Sobraram alguns tios e primos.
Resolveu mudar-se para a praia, adorava o mar e fez novas amigas, solteiras como ela, e até que se divertiam bem. As amigas namoravam uma até se casou e sempre estavam interessadas em alguém, mas ela estava tão fechada que nada acontecia.
Na sua solidão sonhava com um escritor que admirava muito e criava lindos encontros, era o seu namorado de sonhos, e tanto sonhou que em alguns momentos acreditava que isso era verdade.
Será que não se encontravam no meio do sonho? Quem poderia garantir que não? Tem tantos mistérios na vida...
Foi se convencendo e acabou contando para uma amiga e depois para outra e todas ficaram sabendo que ela namorava M. não acreditavam, mas não queriam desmenti-la. Quando questionada por que ele não aparecia, sempre tinha uma resposta pronta, às vezes sumia por alguns dias e dizia que tinha ficado com ele e que não poderiam aparecer juntos, pois ele era casado.
As amigas não acreditavam, mas toleravam, não queriam brigas e no fundo se divertiam com toda aquela imaginação.
Acontecia de algumas noites ela não conseguir sonhar e a solidão entrava e quase a matava de dor, chorava a noite toda até dormir de cansaço.
Aninha como boa moça que era participava das obras de caridade da igreja e duas vezes por semana servia a sopa dos pobres na paróquia.
Apiedava-se daqueles que a vida abandonou e daqueles que abandonaram a vida. Era admirada por todos, sempre alguém falava de sua delicadeza, de suas roupas bonitas e isso era tudo que precisava.
Conversava com todos e ia conhecendo suas histórias. Foi assim que conheceu João, moço que perdeu emprego, foi roubado, ficou sem dinheiro, sem amigos, sem casa, sem nada e agora vivia de pequenos bicos e da caridade alheia. Era uma história até que comum por ali, mas ele a olhava como seu pai o fazia e Aninha resolveu ajudá-lo.
Levou-o para sua casa para que tomasse banho, cuidou de suas pestes, deu-lhe de comer e bem... Para encurtar a história de namorada delirante de M., escritor consagrado, vivia agora na companhia de João.